Balancial: onde cuidado e resistência se encontram

Caminhos que me trouxeram até a psicologia

Cheguei na psicologia movida pelo desejo de acolher, mas também pela necessidade de sobreviver. Ser uma mulher negra na clínica não é um detalhe: é atravessamento diário. Cada atendimento, cada encontro, cada olhar carrega histórias que ultrapassam o conhecimento técnico. Antes da escuta, há sempre uma vida inteira que insiste. E foi esse chamado, entre afeto e resistência, que me conduziu até aqui.

A psicologia no Brasil: heranças e ressignificações

A psicologia brasileira não nasceu acessível para todas as pessoas. Suas raízes coloniais e elitistas limitaram por muito tempo o acesso, definiram práticas que silenciavam raça, gênero, classe e território. Mas, ao longo do caminho, profissionais abriram brechas, ressignificaram a profissão e mostraram que a escuta pode ser interseccional e transformadora. É nesse rastro que construo minha prática: reconhecendo que a clínica só se sustenta quando considera a complexidade das vidas que nela se apresentam.

Ser psicóloga em 2025

Hoje, ser psicóloga significa reconhecer que a clínica não é neutra e que o espaço de cuidado é também espaço político. Escutar envolve não apenas acolher, mas questionar, resistir e reinventar. É estar atenta às desigualdades, às narrativas apagadas, às experiências que o mundo insiste em invisibilizar. Ser psicóloga em 2025 é criar, junto com cada pessoa que chega, formas de cuidado que façam sentido, que abracem singularidades e fortaleçam coletividades.

O nascimento do Balancial

Foi dessa visão que nasceu o Balancial. Mais que um espaço físico, ele é resultado de história, planejamento e propósito. História, porque surge da necessidade de criar um lugar onde diferentes psicólogas e profissionais possam exercer seus trabalhos de forma ética, plural e comprometida. Planejamento, porque cada detalhe — das salas ao formato de sublocação — foi pensado para garantir acesso, sustentabilidade e continuidade. Propósito, porque o Balancial existe para ser rede: reunir, conectar e sustentar práticas de cuidado que ultrapassam paredes.

Balancial como lugar de resistência e criação

Aqui, acreditamos que saúde mental é inseparável de justiça social. O Balancial é encontro, reflexão, acolhimento e criação coletiva. Cada sala, cada turno, cada roda aberta é oportunidade de resistir às lógicas individualistas e de lembrar que ninguém floresce sozinho. É um espaço para afirmar que cuidado é, ao mesmo tempo, celebração e luta.

Memória, futuro e celebração

Ser psicóloga negra é um ato de memória e de futuro. É carregar as vozes que vieram antes e abrir caminho para novas narrativas. É escrever, junto com quem chega, mesmo em silêncio, o lembrete de que todo ser humano merece um lugar de raiz e de respiro.

Neste 27 de agosto, celebro a profissão, mas celebro também a possibilidade de fazê-la florescer em comunidade. Que o Balancial siga sendo esse chão fértil onde cuidado e resistência se encontram, e onde florescer é sempre um ato coletivo.

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