Sentir também é saber: o sentir como Orí

Como psicólogas negras transformam incômodo, ancestralidade e crítica racial em guia para a prática clínica

Na vida de uma psicóloga negra, sentir não é apenas emoção, é também conhecimento. Em um mundo que frequentemente tenta deslegitimar essas percepções, confiar no incômodo e no desconforto é um ato de resistência. Mais do que reação, é um alerta do corpo: aqui existe um limite que foi cruzado, aqui é preciso atenção.

Esse incômodo pode ser lido como fraqueza, como excesso de sensibilidade, mas na verdade é o contrário: é força. É o corpo e a mente anunciando que há fronteiras éticas e profissionais que precisam ser respeitadas. Nesse sentido, o sentir não é vulnerabilidade, é guia.

Falar em ancestralidade é falar daquilo que nos precede, da força e da memória coletiva que sustentam nossas existências. Para mulheres negras na clínica, ancestralidade significa lembrar que não caminhamos sozinhas. Herdamos práticas de cuidado, estratégias de sobrevivência e modos de enfrentar o racismo que nos atravessam até hoje. Como nos lembra Lélia Gonzalez, a cultura negra é um sistema de conhecimento, mesmo quando tentam silenciá-la.

A historiadora Beatriz Nascimento nos lembra que Orí não é apenas cabeça.

É também caminho e destino. Essa noção amplia a ideia de orientação, mostrando que as escolhas, intuições e percepções não nascem apenas do individual, mas se conectam com a coletividade, com a ancestralidade e com as condições históricas de quem somos. Quando psicólogas negras confiam em seu sentir, estão também honrando essa dimensão maior: um saber que é corpo, memória e futuro ao mesmo tempo.

Nesse ponto, a crítica racial se torna fundamental. Não basta apenas sentir, é preciso nomear. A análise crítica ajuda a compreender que o que chamam de exagero ou suspeita muitas vezes é resultado do racismo institucional, que insiste em ensinar mulheres negras a duvidarem de si mesmas. Ao unir sentir, ancestralidade e crítica, a prática clínica se fortalece e ganha uma bússola própria.

Esse movimento é também um chamado para outras psicólogas: acreditar nas próprias percepções, confiar nos aprendizados que a vida e os estudos oferecem e assumir o sentir como parte do saber clínico. Ao fazer isso, deixamos de enxergar o incômodo como obstáculo e passamos a reconhecê-lo como ferramenta de cuidado, ética e posicionamento.

Sentir também é saber.

E quando esse saber é cultivado na escuta do corpo, na ancestralidade e na crítica racial, ele se transforma em guia. Um guia que não só orienta a prática clínica, mas também reafirma que a experiência das mulheres negras é, sim, um lugar legítimo de produção de conhecimento.

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